Crianças de agora têm menos habilidades físicas

Estudo recente revela que brincadeiras modernas não estimulam o desenvolvimento da consciência corporal.

Crianças de agora têm menos habilidades físicas

Um estudo recente feito na Inglaterra mostrou que, em comparação à geração de dez anos atrás, as crianças de agora têm menos habilidades físicas e motoras. Segundo a pesquisa, o desempenho mais fraco tem a ver com o atual estilo de brincar da criançada, tanto na escola, quanto em casa.

Na visão da presidente da Associação Brasileira pelo Direito de Brincar (IPA Brasil), Marilena Flores Martins, atividades que desenvolvem a consciência corporal estão perdendo espaço para brinquedos menos estimulantes nesse sentido. “Esses brinquedos são tão atraentes aos olhos de filhos, e também de pais, que substituem, em grande parte, o pique-pega, o esconde-esconde, o subir em árvores”, explica.

Brincar na rua é experiência incomparável

Segundo a especialista, nem os parquinhos mais modernos e bem equipados conseguem substituir a experiência de brincar na rua, onde a criança tem de improvisar e usar a imaginação.

A estudiosa explica que por trás de cada brincadeira há um aprendizado: a “caça ao tesouro” desenvolve as habilidades de escavação, pular muros simula uma escalada, construir uma casa na árvore promove o contato com a natureza e ensina a criança a trabalhar em equipe e respeitar o meio ambiente.

“Tudo isso fortalece a criança fisicamente e emocionalmente, favorece o controle sobre o próprio corpo, desenvolve habilidades psicomotoras, além de ensinar, na prática, a importância da preservação ambiental”, salienta a psicóloga.

Preocupação excessiva pode atrapalhar

Por isso, é importante que pais e educadores incentivem as brincadeiras “retrô”, sem exagerar nas preocupações com a segurança das crianças. Cair e machucar faz parte do aprendizado.

“Esse medo, associado ao excesso de atividades e expectativas por parte dos pais, vem provocando nas crianças transtornos de ordem física e emocional. Crianças humanas não são desenhadas para sentar-se na frente das telinhas. É contra a sua natureza”, ressalta Marilena, parafraseando o escritor norte-americano Richard Louv.

Dados da pesquisa Tente Algo Novo, encomendada por OMO, mostraram a importância de proporcionar às crianças a oportunidade de aprender pela experiência, mesmo que isso envolva um certo grau de risco físico ou de exposição a comportamento inéditos.

Criança aprende a avaliar riscos

Segundo o levantamento, 92% dos pais e dos profissionais infantis concordam que é essencial encorajá-las a viver novas experiências. Entretanto, 69% admitem que sua maior preocupação é de que a criança se machuque.

“É realmente muito mais prático deixar o filho vendo TV ou no playground. Isso dá segurança, conforto e mantém a criança ocupada e até enturmada com outras crianças”, observa Marilena.

“No entanto, em um ambiente adequado, ela pode ter contato com novos elementos, aprendendo a controlar os riscos. Isso porque a criança aprende o que vive, muito mais do que com o que lhe é ensinado teoricamente. Ela precisa diariamente de uma boa dose de estímulo para sentir-se viva e feliz”, frisa.

*Pesquisa “Tente Algo Novo (2010)”. Encomendada por OMO, com coordenação de Dorothy e Jerome Singer, doutores da Universidade de Yale (EUA). Metodologia: 800 entrevistados, crianças de 8-13 anos acompanhadas pelos pais, em quatro países (Argentina, Brasil, França e Reino Unido), utilizando os serviços de campo global da TNS.